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Mancha dos Bombeiros - Uma área a preservar

Atualizado: 26 de jan.

A AVM visitou com vagar a área da Mancha dos Bombeiros, cuja preservação interessa não apenas aos moradores da Vila Mariana e região, mas a toda a cidade. No momento em que se discute a preservação dos bens de valor histórico e ambiental remanescentes da arquitetura e do urbanismo da primeira metade do século XX, em face das inúmeras demolições em andamento, é fundamental conhecer e preservar esses espaços da cidade que têm história viva para contar.


Foto do alto que mostra algumas ruas da região Mancha dos Bombeiros
Imagem 1: Mapa da região Mancha dos Bombeiros, pedido de tombamento, Dossiê João Bittar Fiammenghi e Arthur Sanchez Badin, 2023

A “Mancha dos Bombeiros” teve a Abertura de Processo de Tombamento (APT) em 11/05/2023 pela Resolução Nº 07/Conpresp/2023. A área ficou reduzida, diante do pedido inicial dos moradores (ver imagem 1), aos três perímetros (imagem 2) definidos pelo NIT (corpo técnico do DPH) e aprovado na abertura de tombamento pelo Conpresp, que ainda permaneceram preservados em face das demolições ocorridas em parte do perímetro inicial solicitado.


Desenho do mapa
Imagem 2: Mapa Resolução Nº 07/Conpresp/2023

As arquitetas Eliana Barcelos e Cíntia Padovan, da AVM, começaram a visitação pela rua Oswaldo Moreira Pompeu, a “Vila Calabi”, uma travessa da rua dos Bombeiros. Esses sobrados são originários da chácara do Caguaaçu. Vendida pelo ex-presidente da província de SP (Dutra Rodrigues) a Manuel Bernardo Uchoa (em 1887), a área ficou conhecida como “Beco do Uchoa”, seu limite sul. Em 1915, o Beco passa a se denominar “Travessa dos Bombeiros”, clara referência à “Invernada dos Bombeiros”, extensa porção de terra que ia desse limite até os campos alagadiços do Ibirapuera, onde eram criados os bois que compunham os veículos de tração animal do Corpo de Bombeiros – este, criado em 1880.


A chácara passa às mãos de Manoel Nunes de Souza Souza em 1902; a partir daí advém o fracionamento em lotes, voltados a residências unifamiliares próprias, ou para renda de aluguel. E também decorre daí aqueles lotes que futuramente abrigariam a Vila Liscio (1934), a Casa Moya & Malfati (1941), a Vila Calabi (1943) e a Casa de Oswald de Andrade. 

  

Um eminente arquiteto italiano de origem judaica emigrado da Itália em 1939, auto exilado do regime fascista que ameaçava a Europa, Daniele Calabi, projetou os 16 sobrados geminados em pares da vila “Calabi”, edificada no início dos anos 1940. O local abriga um portão mas permite que transeuntes da vizinhança circulem pela via única até o cul-de-sac (expressão francesa para balão de retorno ao fim de uma rua sem saída). Vizinhos se cumprimentam e tratam de assuntos cotidianos. A rua é lugar de festas, celebrações coletivas e brincadeiras infantis. 


O morador da região, Arthur Badin foi o cicerone na visita. Ele é um dos vários que lutam pela preservação da área, cuja configuração compõe uma transição entre os edifícios altos que descem da av. Paulista, e o parque do Ibirapuera.  


Foto de uma rua estreita e arborizada
Vista da Vila Calabi em direção À entrada. Ao fundo o Conjunto Almirantes, do arq. Jaime Lerner

Quase na esquina da rua Tutóia com a av. Brigadeiro Luiz Antônio está a Vila Liscio.  Com projeto de 1934, trata-se de um conjunto de casas em estilo eclético, com desenho arquitetônico harmonioso e diferenciado, projetado e executado pelo Escritório Técnico A. Marchesini, de Augusto Bernadelli Marchesini, engenheiro que projetou o Teatro São Pedro, na Barra Funda (1917). Infelizmente não foi possível adentrar a vila – cercada por tapumes. Até recentemente tinham uso comercial.  Ameaçadas de serem demolidas por um empreendimento imobiliário, a ação de moradores pedindo o tombamento barrou a demolição. Um edifício comercial adjacente na esquina, se integra em escala e estilo à vila.  


Vistas da Vila Liscio, altura no n° 3000 da av. Brigadeiro Luiz Antônio 


Poucos paulistanos conhecem essa área discreta, entre a movimentada av. Brigadeiro Luiz Antonio, a rua Tutóia e a grande área pertencente ao Exército, na rua Manoel da Nóbrega, ao lado do Ginásio do Ibirapuera. É composta de várias ruas estreitas e vilas arborizadas, que com seu desenho característico cumprem função ambiental vital para a cidade, além do valor arquitetônico e urbanístico. Estamos falando da estreita travessa Antonieta Medeiros que se liga inesperadamente à rua Álvaro de Menezes, junto à rua Prof. João Marinho, com ares de praça, grandes sombras de árvores, crianças brincando, vizinhos reunidos para um conserto mecânico de automóvel, ou a bucólica e sinuosa travessa Vera de Oliveira Coutinho, com cerca de 2 metros de largura, de paralelepípedos.  


Vista da rua Prof. João Marinho e da travessa Vera de Oliveira Coutinho

 

Entre as áreas a preservar está a Vila Avancini, com 19 casas. Foram construídas pela firma de Pedro Avancini, uma rua sem saída (Arabá) com sobrados geminados em pares ou em trio, com acesso pela rua Manoel da Nóbrega. Com mais de 60 anos de construção, projetada em 1957, a família Avancini empreendeu essa vila de casas aprazíveis na parte interna do terreno para serem alugadas. Essa, e outras vilas do entorno com saída pela rua Tutóia, formam uma “mancha” de tranquilidade, ambiência e afeto dos moradores, diante do agitado entorno da av. Brigadeiro Luiz Antônio. 


Foto de vila com casas e árvores na Vila Mariana
Vista da Vila Avancini a partir da entrada. Ao fundo as torres da rua Tutóia

Outra preciosidade está a cerca de 300 metros, na Brigadeiro nº 3185:  o Conjunto Almirantes, de 1964/65, com os dois edifícios Barroso (11 pavimentos) e Tamandaré (15 pavimentos). Trata-se de um dos primeiros projetos do renomado arquiteto urbanista Jaime Lerner, escolhido pelos incorporadores através de concurso, à época iniciante, como o construtor Adolpho Lindenberg. Esse conjunto, por sua relevância arquitetônica, provavelmente o primeiro edifício em curvas sinuosas (Copam 1966) e o bom estado de conservação, compõe a história do perímetro que foi sendo ocupado em decorrência do adensamento provocado no eixo sudoeste em direção ao rio Pinheiros e pela inauguração do Parque Ibirapuera em 1954. Bem ao lado, outra vila com casas cinqüentenárias sobrevive.  


Foto de prédios da Vila Mariana
Conjunto Almirantes, projeto do arq. Jaime Lerner e construção de Adolpho Lindenberg

A Mancha dos Bombeiros integra o patrimônio cultural e ambiental de São Paulo, geomorfologicamente ligada à várzea e ao parque do Ibirapuera, que tem grande função ambiental no controle de cheias – em grande parte em planície aluvial, e seu entorno também requer a adequada proteção ambiental paisagística.


A preservação contra a ameaça de sua fragmentação conta hoje com apoio de notáveis especialistas e mais de 2.000 pessoas.  Faça parte desse grupo. Colabore assinando:


 (Postado em 24/01/24)

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